Sustentabilidade e métricas para construção
Por Paola Lescura – Ambar
Eu duvido que você saiba dizer exatamente quando foi que a sustentabilidade passou a impactar a sua vida. O fato é que sustentabilidade é aquilo que tem sustento, e isso passou a importar cada vez mais com o passar dos anos. Ao passo que os impactos causados pela nossa existência, crescimento e desenvolvimento acelerados e pouco empáticos com o meio ambiente tornaram nossa existência como é insustentável, fomos obrigados como sociedade a nos importarmos mais com a sustentabilidade de nossas ações e as respectivas consequências delas.
A ONU então definiu desenvolvimento sustentável como aquele que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades. No ramo da construção civil, isso não pode ser diferente.
A famosa indústria dos 40 por cento, na qual estamos inseridos – e você, leitor, muito provavelmente também está – é responsável por 40% de todos os resíduos sólidos globais e apresenta diversas outras ineficiências que poderiam ser minimizadas se a fragmentação da construção, hoje, não fosse tamanha. Entenda por fragmentação a imensa diversidade de disciplinas de projetos sendo tratadas individualmente, sem compatibilização e sem pensamento unificado que busque inovações.
E o que podemos fazer com isso? O que minha empresa pode fazer para se tornar mais “verde” e ambientalmente correta?
O principal erro de grande parte dos agentes é pensar na sustentabilidade como ações de marketing para mostrar um posicionamento eco-friendly. A sustentabilidade é mais complexa do que parece e está sustentada em três pilares igualmente importantes, trata-se da sustentabilidade econômica, social e ambiental. Em outras palavras, não é só a emissão de CO² que importa, é também o engajamento social e cultural da empresa que cuida dos recursos e educa para que não comprometamos o futuro das gerações, é também o aproveitamento dos recursos financeiros para entregar mais com menos e, principalmente, o trabalho integrado de ações com essas três faces.
Existem dois movimentos que são chave para esse despertar de novas ações em várias áreas da atividade humana incluindo a construção civil. Aqui podemos dizer sobre o desenvolvimento tecnológico e a adaptação do pensamento. Acreditamos que esses fatores são os principais capazes de nos levar para o caminho da revolução sustentável, afinal, o poder de transformação da onda digital e da mente humana sempre foi imenso, então, cabe a nós depositarmos os nossos esforços para que esses movimentos estejam integrados com o pensamento de sustentabilidade para nos favorecerem, levando para uma vida menos agressiva às próximas vidas.
E se nos baseássemos na inteligência da natureza para encontrar uma solução para tudo isso? Bom, nesse caso, estaríamos falando de economia circular, que propõe uma mudança na a maneira de consumir, no design dos produtos e na nossa relação com as matérias-primas e resíduos. Isso significa, que para alcançarmos nosso objetivo na construção civil, precisamos de uma comunicação entre a cadeia muito mais eficiente, pois, hoje, todos os agentes atuam sobre o projeto e não em uma rede compatibilizada e integrada. Podemos pensar que o projeto é fundamental em todo o processo, mas isso ocorre principalmente quando ele já nasce pensado para ser eficiente e otimizado.
Justamente por essa necessidade de integração, podemos perceber que a transformação não vai vir de uma empresa ou player específico que trará toda a solução. A Ambar, desde seu nascimento, pensa em como melhorar diversos dos processos da construção civil, buscando zerar resíduos, aproveitar recursos, otimizar gastos energéticos e etc., mas é fundamental a presença e colaboração de parceiros em todas as etapas do desenvolvimento de nossos produtos.
Se fosse para dar uma única dica neste artigo, eu diria para você se rodear de empresas que tem o pensamento da geração atual: encontre fornecedores que fazem o uso da reciclagem; parceiros logísticos que tenham ciência e compromisso com suas emissões de carbono; clientes que comprem os seus produtos ou serviços porque sabem que você tem objetivos sustentáveis; e, principalmente, empresas que estão mais evoluídas nestes e em outros aspectos para se inspirar. E, para não dar uma dica incompleta, deixo aqui quem tem sido a principal inspiração para Ambar nos últimos anos: a Katerra, uma construtech americana que tem a tecnologia como sua principal parceira, ela controla todo o processo construtivo da obra desde o projeto até a entrega e, além disso, a construção é feita em plantas industriais (off-site), onde é possível racionalizar boa parte do processo construtivo. Onde será que já vi isso mesmo?!
Como medir a sustentabilidade de uma edificação?
Em 2015, existiam 28 métricas diferentes para medir a sustentabilidade de edifícios, como Green Building – LEED, Aqua, Procel, etc. Mas, a verdade é que mais do que ser um selo ambiental, estes são métricas para investimento, afinal edifícios que atendem métricas de sustentabilidade são, na teoria mais seguros de se investir, por se entender que estes mesmos são também mais eficientes. Por outro lado, atrelar totalmente a sustentabilidade de um edifício aos selos pode ser injusto, afinal certificações têm custos e muitos prédios que se sustentam há anos podem ser extremamente mais sustentáveis do que um prédio esteticamente “verde” e com selo. Um ponto de atenção para todos é o greenwashing, ou seja, a falsa apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações ou pessoas, muito comum quando todo esse processo de certificação se dá apenas por envio de documentos.
Por que é tão difícil medir a sustentabilidade na construção civil?
Recentemente uma experiência interna nos permitiu vivenciar essa dificuldade na Ambar. Solicitamos a ajuda de especialistas da Universidade Federal de São Carlos para estudar a emissão de CO² nos processos de instalações pré industrializadas comparadas às emissões das instalações tradicionais e ficamos felizes em dizer que a cada unidade habitacional feita com produtos Ambar, deixa-se de emitir 38 Kg de CO², ou seja, a cada 4 casas, deixamos de emitir a mesma quantidade de CO² que seria necessário uma árvore – em toda sua vida completa – para neutralizar. Contudo, vimos o quão difícil foi identificar, mapear e quantificar dados nessa área: são muitos players, com uma divisão de responsabilidades não tão clara e, quanto mais tendemos a abraçar todas as responsabilidades, mais complicado fica neutralizar todo o impacto negativo. Isso indica, mais uma vez, a importância de trabalharmos colaborativamente com parceiros, fornecedores e clientes.
Dica:
Webinar Sustentabilidade além das métricas
No mês de maio, a Lu Hergo, Head de Inovação da Ambar e eu, tivemos a oportunidade de conversar ao vivo sobre o tema da sustentabilidade e suas métricas com a Mariana Macedo, do Papo Construtivo. Lá pudemos dar várias dicas pessoais para nortear ações, então, vamos aproveitar para resumi-las aqui para você, mas não deixe de conferir todo o conteúdo no canal da Ambar no YouTube.
- O podcast Papo Construtivo traz novidades semanalmente do universo da construção civil, principalmente sobre como mudar a cadeia, e a sustentabilidade sempre aparece em várias discussões;
- O perfil do Instagram @mariaviroueco dá dicas práticas para colocar sustentabilidade no seu dia a dia e você pode aproveitá-las para implementar ações na sua empresa também;
- O livro Sustentabilidade, o que é o que não é, de Leonardo Boff pode te ajudar a entender mais conceitos por trás do tema e corrigir muitos equívocos que às vezes cometemos;
- Observar a natureza pode ser chave para encontrar muitas respostas que procuramos há anos, não é atoa que a biomimetica vem revolucionando muitas áreas da atividade humana nos últimos tempos;
- A série Abstract, do Netflix, conta com um episódio cujo foco do documentário é a bioarquiteta Neri Oxman, cientista do MTI e chefe do laboratório MTI MediaLab. Suas obras são magníficas o suficiente para serem capas de renomadas revistas científicas e estarem nas principais exposições de arte do mundo ao mesmo tempo;
- Por fim e não menos importante, toda empresa é feita de pessoas: estimular a consciência sustentável na vida pessoal de cada um pode fazer mais diferença para sua companhia e para o mundo do que certificações e ações de marketing verde.